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Tito Mouraz — "Fluvial"

Sem Título (2013), da série "Fluvial". Exposição na Quinta da Cruz — Centro de Arte Contemporânea até 8 de Janeiro de 2023

Integrada na programação vistacurta 2022, o Cine Clube de Viseu apresenta a exposição de Tito Mouraz, fotógrafo que tem abordado os temas da paisagem, memória, mito e natureza no seu trabalho. FLUVIAL é uma meditação em torno das praias e aldeias do interior norte e centro de Portugal. Fotografadas entre 2011 e 2018, estas cenas fluviais transformam a geografia pessoal de Mouraz numa atmosfera de ficção. FLUVIAL é a primeira exposição individual de Tito Mouraz em Viseu.




Nm olhar desatento, podia pensar que esta série fotográfica "Fluvial" é uma boa colecção de imagens recolhida dos telemóveis dos banhistas. Onde vemos que não é assim?
Apesar de fotografar pessoas comuns e visões naturais, procuro um tratamento e uma relação com os corpos humanos e não-humanos que seja equivalente, quase como se estas pessoas fizessem parte da paisagem e sempre lá tivessem estado. O objectivo, com esta equivalência, é o de tentar provocar uma suspensão, uma pausa, que sirva de contraponto à fugacidade com que no geral observamos o mundo hoje em dia.

Uma reflexão paciente para lugares bem definidos.
No meu trabalho existe uma atração recorrente por territórios-limite — paisagens marítimas ou fluviais, zonas vulcânicas, grutas, florestas, montanhas, etc. O fascínio por estes lugares advém não necessariamente do facto de serem distantes, mas do carácter inóspito das condições geográficas e climáticas que, por norma, moldam e condicionam as próprias vivências e formas de estar. São estes elementos e pontos de contacto que eu escolho mostrar e que estão directamente ligados a lugares como este. Não é uma série documental fiel, ou exaustiva, há coisas que não estão cá, há toda uma vida à volta que, por opção, não mostro. Há uma certa ficção na sua construção. É apenas um modo de abordagem. Com ele pretendo estimular a imaginação e uma outra compreensão do lugar — no fim, acho que cada um vê a sua coisa.

Na fotografia do Tito há uma sensibilidade de espaço e textura local muito presente, mas podemos dizer que o tempo é menos definido. Como se balança entre o exercício estético e o exercício de memória/documental?
Aqui apenas fui movido por uma fusão de memórias felizes: momentos simples da vida, o calor e o cheiro do Verão, o som do rio, dos pássaros, dos insectos — o silêncio. A paisagem da Beira Interior tem tido uma presença recorrente nos meus últimos trabalhos. Estou emocionalmente ligado a ela, tenho um relacionamento e um passado com estes lugares e visito-os com alguma frequência. Pensei na narrativa como um lugar indefinível no tempo. Não tem de ser necessariamente o presente, procuro uma paisagem anónima, onde sejam poucos os elementos que nos tragam para uma realidade actual. Apesar desta observação a um território que nos é familiar, tenciono provocar no espectador uma noção de estranheza, convocando a imaginação numa experiência de emoções solitária e pessoal, tal como a minha quando fiz estas fotografias.

Se conhecêssemos o planeta pelas suas fotografias, a natureza seria dominante e bela; a figura humana seria rara e sobrevivente no seu ambiente. Imagem que faz eco com o passado e o futuro da espécie? Também teve esta impressão, no processo criativo, ou é uma ressonância inesperada?
Alguém me escreveu qualquer coisa como “É uma série excepcional: as personagens parecem ter medo da câmara e esta das personagens. Ninguém dá o primeiro passo, mas as fotografias aparecem.” Agrada-me a ideia de não forçar explicações lógicas. Não quero que o real seja a minha verdade absoluta mas sim uma verdade disfarçada, quase como se representasse aquilo que não pode existir. Como disse antes, apesar de fotografar pessoas e visões comuns e naturais, há uma tentativa de reinventar o lugar. Mas não me sinto obcecado com a procura de um estilo visual ou de uma marca. Na verdade agrada-me a surpresa, o imprevisível, a liberdade de criar através de inspirações e experiências pessoais, sendo quase sempre movido pela luz e pela própria atmosfera. Voltando à pergunta, tudo isto acabam por ser ressonâncias inesperadas que, paradoxalmente, também são de certo modo provocadas.


Sem Título (2017), da série "Fluvial"

Qual lhe parece ser o futuro mais interessante no mundo da arte fotográfica?
Para mim continua a ser o das emoções. A minha relação com o mundo natural e não-natural está certamente presente nas minhas fotografias e resulta de uma vivência pessoal de que anteriormente nem eu próprio tinha consciência. E muitas vezes é o próprio processo de fotografar que me permite estabelecer ou perceber relações que de outro modo não faria.

Que novas experiências de imagem podem, ou devem, aparecer?
O que está mal explorado?

Tenho sempre dificuldade em responder a este tipo de questões, direccionadas para algo em concreto, quase como se a prática fotográfica tivesse que estar arrumada e bem definida. A fotografia é uma possibilidade de múltiplas interpretações e não estou interessado em desenvolver um estilo visual específico, mas sim continuar a aprender com a minha própria prática. Gosto de descobrir os lugares através da fotografia, uso-a para aprender. Faço sempre fotografias de onde estou, nem sempre sei para que servem, mas ensinam-me muito sobre o lugar, as pessoas, o tempo, as distâncias, o sentir e o observar — no fundo, aquilo que quase sempre fica comigo. Esta experiência pessoal é o melhor que a fotografia me dá.

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Entrevista a Tito Mouraz por Nuno Rodrigues,
para assinalar este projecto em rigoroso exclusivo no vistacurta.


Tito Mouraz,
Canas de Senhorim, 1977

Finalizou o curso de Artes Visuais e Fotografia na Escola Superior Artística do Porto em 2010, onde vive e trabalha actualmente. Expõe regularmente desde 2009 em Portugal e no estrangeiro.

Das suas exposições individuais destacam-se: Fluvial, Centro Cultural Camões, Luxemburgo (2021); Mergulho, Salut au Monde, Porto (2021); Fluvial, Museu Finlandês de Fotografia, Helsínquia (2019); THEM OR US!, Galeria Municipal do Porto (2017); A Casa das Sete Senhoras, Carpe Diem Arte e Pesquisa, Lisboa (2014).

De exposições colectivas destacam-se: Un eté au Portugal, Villa Tamaris Centre D’art, FR (2022); Não sei se posso desejar-lhe feliz ano, Obras da coleção Mário Teixeira da Silva, MNAC, PT (2022); Olhar direito por linhas tortas, Espaço Adães Bermudes, Alvito, PT (2021); Epicentro: Milagre, Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, São Miguel, Açores (2020); Fluvial, Bienal de Fotografia, Museu Municipal de Vila Franca de Xira, Vila Franca de Xira (2019); Olhares Cruzados/Identidades Diversas, Galeria Módulo, Lisboa (2016); Ponto de Partida – Colecção Figueiredo Ribeiro, QUARTEL, Abrantes (2016); A Casa das Sete Senhoras, Encontros da Imagem, Braga (2014).

A sua participação em festivais inclui, Backlight Photo Festival, Tampere, FI (2017); Fotofestiwal, Lodz, PL (2015); FORMAT Photography Festival, Derby, UK (2015); Festival Circulation(s), Paris, FR (2015). As suas obras integram várias coleções como a Colecção de Fotografia do Novo Banco; Coleção Mário Teixeira da Silva; Colecção Figueiredo Ribeiro; Colecção de Arte da Fundação EDP; Fundação PLMJ; Colecção Marin Gaspar; Fundação Lapa do Lobo; Pico do Refúgio, entre outras colecções privadas.

Em Portugal é representado pela galeria 3+1 Arte Contemporânea, Lisboa.